janeiro 20, 2004

Apoio activo

Tenho uns amigos que já estão em lista de espera para adoptar à 4 anos.
Decidiram ser voluntários numa instituição de apoio a menores. Vão conviver com eles 1 vez por semana, e fazem mais de 100 Km, para partilharem da companhia daquelas crianças.
Temos conversado sobre o que sentem ao contactarem com elas, e vejo os seus olhos brilharem, com um misto de exultação e mágoa.

Dizem-me que apenas uma das crianças, poderá ser adoptada. As restantes, fruto das mais variadas situações, nunca o poderão ser. Ficarão por isso, na Instituição, até que legalmente as possam manter.

Não tendo directamente a ver com a adopção, mas ficando preocupado pela forma como essas crianças vivem desenquadradas de uma referência familiar, acabei por ficar a pensar acerca daquilo que o meu amigo me estava a dizer.

Perguntei a mim mesmo, até que ponto as Instituições, em vez de servirem apenas de espaços de acolhimento, não deveriam passar a apoiar a integração dessas crianças no seio das suas próprias famílias.

Tendo em consideração que nem todos os casos se poderão enquadrar naquilo que vou passar a descrever, talvez, alguns beneficiassem mais do que actualmente.

Analisemos o seguinte caso:

Várias famílias recusam dar os seus filhos para adopção, sabendo que, telefonando ou comunicando com os eles no mínimo, uma vez de 6 em 6 meses, eternizam a sua permanência nas Instituições, para que um dia, quando os seus filhos forem maiores, eles ainda os possam reconhecer como pais.

Longe de mim julgar tais formas de “educar”, penso no entanto, que seria mais positivo que essas Instituições (nos casos em que tal seja possível) devessem ter outro papel, um pouco diferente do actual.

O contacto de 6 em 6 meses, por si só, parece-me pouco, para provar do interesse dos pais biológicos, pelos seus filhos. O estado deveria criar mecanismos legais que “fomentassem” a integração dessas crianças com a sua família, pelo menos ao fim de semana, não permitindo assim que esses pais “passassem a bola” para que outros criassem os seus filhos por eles. Teriam de ter uma proximidade efectiva e não virtual.

Assim sendo, as Instituições não serviriam apenas (como são acusadas) de meros depósitos de crianças.

Se essas mesmas crianças podem sair aos fins de semana para famílias de acolhimento, porque não “fomentar” a proximidade com os seus pais verdadeiros, e fazer disso uma obrigação, para provarem que não tendo condições, mesmo assim, os querem perto de si.

As Instituições passariam a apoiar, não só as crianças, mas também as famílias.
Se estas premissas, depois de analisadas pela Segurança Social, não se mantivessem, deixaria de fazer sentido, continuar a falar dos pais biológicos como donos das crianças sem lhes proporcionarem absolutamente nada mais, que o seu nascimento.

O supremo interesse da criança, não deverá estar “preso” a um fio tão ténue, como o que actualmente segura as crianças tanto tempo nas Instituições.

PauloS

Publicado por PauloS em janeiro 20, 2004 08:29 PM
Comentários

Caro Paulo:

Acho que tocou num ponto essencial.

Alguém duvida que no caso de uma instituição na área da saúde o seu objectivo será o de "tratar" o melhor possível o paciente, mas também o de lhe "dar alta" o mais cedo possível?...

No caso das instituições de apoio à infância é preciso que se estabeleça também essa (apenas aparente) ambiguidade, assumindo que deverão ser contextos de qualidade mas também de emergência e tão transitórios quanto possível. Trabalhar com as famílias, com a comunidade, com as entidades responsáveis pela adopção, etc, significa alargar o âmbito e a vocação das instituições.

Sou profundamente a favor do voluntariado e das práticas de cidadania. Mas entendo que tudo isto passa por uma dimensão técnica. E (lá venho insistir nesta ideia) preocupa-me que tantas destas instituições continuem a funcionar sem controlo, sem técnicos, sem avaliação... sem a obrigação de reverem as suas missões... e apenas com subsídios que "acalmam" as consciências da sociedade civil!

Enquanto as instituições, mesmo que meritoriamente, se "convencerem" de que "ali é onde as crianças estão melhor", e enquanto às famílias for assegurado o direito (absurdo) de considerarem "seus" os filhos que não querem, teremos infâncias irreparavelmente perdidas, e pessoas a sofrerem uma espera absurda no seu desejo de serem a família "de algum menino(a)".

Afixado por: AnaS em janeiro 23, 2004 12:29 PM

Cara Ana,
Estamos ambos de acordo, só não entendo, porque ainda não houve coragem política, para se alterarem as missões deste tipo de instituições, pois ninguém questiona a sua necessidade, mas que por vezes, servem mais para ajudar a expiar os pecados da sociedade, do que para servir o supremo interesse das crianças.

Gostei do paralelismo que criou com a instituição na área da saúde.

Sei também que algumas centros, estão neste momento sem capacidade para receberem mais crianças, fruto da falta de soluções para integra-las na sociedade fora das instituições, que as obriga a manterem-se umbilicalmente ligadas a um sistema que não as alimenta com os valores sagrados de uma família.

Afixado por: PauloS em janeiro 23, 2004 01:47 PM