janeiro 22, 2004

Apelos do coração

Obrigado Gabriela, por ter iniciado aquilo que chamei, "Apelos do coração", e que as suas palavras tão bem descrevem.

Parabéns, por partilhar connosco, a forma do seu coração, grande e cheio de atitude positiva.

Aguardo, com bastante interesse o que há de escrever sobre a “revelação”.

Bem Haja.

PauloS

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Boa tarde Paulo,
Conforme prometido, aqui estou a participar.

Custa-me começar porque as palavras não saem como eu queria que saíssem, mas mesmo assim aqui vai.
Talvez esteja a extrapolar o conceito, mas é aquilo que sinto, por isso digo: eu adoptei um irmão!

Sou a única filha do primeiro casamento do meu pai, e no seu segundo casamento permaneci filha única até cerca dos meus nove anos. Mas irmãos imaginários não me faltavam, cheguei a ter 5...com nomes e tudo.
Por essa altura os meus pais decidiram que eu teria um irmão/irmã. O que recordo com mais ternura foi a forma como eu fui envolvida nessa decisão familiar.

Existiram muitas tentativas, consultas com médicos, exames, métodos caseiros...e eu ajudava sempre com muito entusiasmo em todas as tarefas que me davam. Eu também queria muito um irmão/irmã.
Após esse período de tentativas infrutíferas, a adopção tornou-se uma alternativa concreta e mais uma vez eu fui envolvida na decisão. Num país como o Brasil e há 22 anos atrás todo o processo foi muito fácil e rápido. Até dava para escolher o sexo e nós queríamos uma menina. A Joana já tinha um babete cor-de-rosa com o nome bordado.

Até que um belo dia, a minha mãe saiu de casa e disse que ia voltar com a Joana. Mas para meu espanto, vi-a chegar com uma coisa muito pequenina, enrugada e ainda por cima, um rapaz? Não podia ser...Não podia ser...Mas tinha que ser!

Hoje, como adulta, sei que foi muito difícil para a minha mãe ir à instituição e ouvir o apelo da enfermeira: "leve antes este menino, ninguém lhe pega porque ele é muito mirradinho, ele está muito fraquinho e se não o levar ele não sobrevive..."
E connosco o meu irmão sobreviveu, cresceu, engordou (e comia com um babete cor-de-rosa a dizer Joana)...
Alguns anos mais tarde, disse à minha mãe: "ainda bem que não conseguiste engravidar porque este é que é o Meu Irmão, não podia ter sido de outra maneira..."
Sei que a experiência que tive de crescer ao lado dele é o meu maior tesouro, a minha maior bênção e parte integrante da pessoa em que me tornei.
Não imagino a minha vida sem o meu irmão e tenho a certeza que antes dele vir a nossa família não estava completa.

Eu hoje tenho 31 anos e ele 22, e ele sabe que foi adoptado. Assim que puder, conto como foi essa revelação.

Espero ter correspondido ao que esperava quando lançou o desafio dos "Apelos do coração"
É com muito sentimento que lhe mando este mail.

Tudo de bom,
Gabriela

Publicado por PauloS em janeiro 22, 2004 08:48 PM
Comentários

Gabriela:
O seu testemunho é um belo exemplo de que as relações familiares e de parentesco têm a ver com os afectos e não com os "genes"...
Além do mais apreciei o seu testemunho de irmã porque sinto por vezes neste blog a ausência de outras participações para além da dos pais ou candidatos a pais. Há também avós, tios, primos e até irmãos expectantes, mas têm estado um bocadinho silenciosos...
Também eu espero um dia poder escrever algo com o título "adoptei um(a)sobrinho(a)".
Acho que o seu irmão é um rapaz com sorte!
AnaS

Afixado por: AnaS em janeiro 29, 2004 11:11 AM

Ana, fiquei sensibilizada com o seu comentário...
Obrigada.

Afixado por: Gabriela em janeiro 30, 2004 10:41 AM

Gabriela, queria dizer-lhe que eu é que fiquei extremamente sensibilizada com o seu testemunho.
Trata-se de um testemunho que nos dá realmente outra noção dos sentimentos envolvidos numa adopção.Pensamos nos sentimentos dos pais adoptivos e nos sentimentos dos adoptados mas muito importante também para o sucesso de todo o processo são os sentimentos da restante família, sejam irmãos, sejam tios, sejam avós e, os seus são realmente aqueles que eu gostaria de ver nas pessoas da minha família quando adoptar uma criança.
Eu acho, sinceramente, que os sentimentos de família resultam da convivência e de muitos outros factores que não os laços de sangue e o seu testemunho veio comprovar a minha teoria.
Obrigada por ter partilhado com todos nós uma história de vida e de sentimentos tão bonita.
Tudo de bom para si e para o seu irmão é o que lhe desejo.

Afixado por: IsabelM em janeiro 31, 2004 07:40 PM