janeiro 26, 2004

Apelos do coração II

Aqui fica o contributo do António Ferreira, que nos conta as suas vivências de voluntariado. Motivadoras e gratificastes, leva-me a pensar, que de facto, faz mais quem quer, do que quem pode.

Bem Hajas António.

PauloS

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Passamos a vida cientes que existem crianças que sem ter exigido nada, têm sobre os seus ombros a responsabilidade de lidar com situações de maus-tratos, agressões variadas, e todos os tipos de problemas que vão contra o seu bom desenvolvimento físico e psicológico.

Sempre soube disso, e a razão do descanso da minha consciência perante a indisponibilidade para ajudar, deveu-se sempre ao facto de achar que as crianças estavam bem entregues, e que as instituições teriam todas as condições para cuidar delas.

Quando conheci a minha mulher, ela já fazia voluntariado, e de entre tantas outras coisas que tenho para lhe agradecer, o facto de me ter oferecido esta oportunidade merece um destaque especial, pois embora eu saiba que apenas meto uma gotinha de amor no mar de carências que estas crianças têm, ao deixá-los, fico sempre com uma sensação de plenitude. Sinto-me mais completo.

Quando me deparei com a possibilidade de fazer voluntariado com crianças, a primeira reacção foi de grande receio por achar que não iria conseguir controlar todas as situações que podiam aparecer. Nunca fui pai, e para ser sincero, nunca achei que tivesse muito jeito para as crianças.

A realidade é diferente. Deparo-me de facto com situações complicadas, mas no momento certo, eu sei o que devo fazer. É automático. Eu justifico um bocado isto com o facto de acreditar que temos uma entidade superior, que nos rege, e que agradecendo o facto de estarmos a ajudar alguém a ser feliz, ilumina-nos com soluções.

O tipo de voluntariado que fazemos, implica ir buscar as crianças para actividades no fim-de-semana, onde durante algumas horas, tentamos apresentar-lhes outras realidades, lúdicas ou de conhecimento geral, que vão para além da casa que os acolhe.

Foi uma surpresa, quando certo dia, os levámos ao CCB assistir a uma exposição de fotografia. Eles adoraram. Fartavam-se de fazer perguntas, deram ideias sobre as fotos, enfim... parecia que estavam no ambiente deles. Claro que depois foram brincar para o jardim em Belém, mas não se chatearam nem um bocado com aquilo. Nota-se nos olhos deles o prazer de conhecer algo novo.

Existem imensas histórias para contar sobre a minha experiência no voluntariado, embora só o faça há aproximadamente um ano, cada vez que estou com as crianças existe sempre algo de novo.

Noutra oportunidade, lançarei para o blog algumas experiências que poderão servir de incentivo a alguns, e de conhecimento a outros, para que quando deparados com situações similares, tenham mais uma na ‘manga’ para aplicar.

Que não fique qualquer dúvida em relação a isto: o resultado é sempre positivo.

António Ferreira

Publicado por PauloS em janeiro 26, 2004 05:47 PM
Comentários

Olá António! Tenho até vergonha de dizer que as suas palavras me surpreenderam. Eu explico: o voluntariado foi sempre para mim uma coisa do domínio do sagrado, porque as pessoas que conheço que passaram por essa aventura sairam sempre magoadas (emocionalmente)ou porque o fizeram na hora errada ou porque não era a sua vocação. É preciso ser-se forte para se amar o que não é seu... Eu sou candidata a mãe adoptiva (fiz esta semana a 1ª entrevista) mas não consigo sequer pensar em ser mãe de acolhimento ou tão pouco fazer voluntariado com crianças. Quando as vamos "devolver" a casa, o que resta? Regressar a casa sem elas não é doloroso? Eu sei que temos de pensar é nos olhinhos delas que brilharam toda a tarde no CCB, mas mesmo assim acho-vos uns heróis. Eu faço voluntariado mas com adultos, sou menos corajosa...

Paulo, obrigada pelas suas palavras no fórum, bem haja. Agora é mais outro ano de espera... até à próxima entrevista! Alarguei as minhas escolhas, como temos convenção com Macau e Hong Kong (e a situação das meninas chinesas é o que se sabe), talvez a minha pequena Leonor seja uma menina de olhos rasgados... Um beijinho para si.

Afixado por: Benedita em janeiro 26, 2004 08:23 PM

Obrigada pelo seu testemunho António. É disso que precisamos para saber que neste país não existe apenas misérias, e eu refiro-me à miséria espiritual.
Também quis ser uma "tia", "madrinha" dessas crianças, mas nunca consegui convencer o meu marido. Ele achava que iria ser um sofrimento para os dois lados.
Estamos agora num processo de adopção, também vamos fazer algo diferente e que me deixa feliz, não fizemos qualquer selecção de raça.

Um bem-haja para ti e para tua mulher.
Sil

Afixado por: Sil em janeiro 26, 2004 10:04 PM

Para além de uma palavra de apreço ao António, quero deixar uma pergunta à Benedita... Vem a propósito da sua referência à convenção com Macau e Hong Kong... Será que me pode dar algumas dicas sobre isso? É que nunca tinha ouvido falar e é uma informação que me parece importante.
Obrigado

Afixado por: AnaS em janeiro 29, 2004 05:02 PM

Olá Ana! Não sei se vou ajudar muito, mas para mim também foi surpresa esta história das convenções, e enquadram-se no âmbito da adopção internacional (tomei conhecimento delas há menos de 15 dias quando fui fazer a entrevista por causa do meu processo de adopção). Se calhar o ideal era dirigir-se a uma qualquer SS... Eu é que optei por esta situação porque escolher uma criança de etnia chinesa pode obviar a espera... Recomendo apenas que se tenha cuidado em relação à idade destas crianças por causa da sua "integração linguística"... termos uma criança em casa de 4 ou 5 anos a falar mandarim ou cantonês não deve ser lá muito engraçado... Eu própria só pensei nisto em casa e ainda tenho de falar com a técnica da SS para alterar a idade que pretendo. Um beijinho para si. O meu mail está aí, poder-me-á escrever se quiser ou então encontra-me no fórum adopção do Clix. Bom fim de semana.

Afixado por: Benedita em janeiro 30, 2004 07:09 PM

António, como eu o compreendo......
Também eu sou voluntária numa instituição ( só desde Novembro ) e sei muito bem quais os sentimentos que isso nos provoca. Tanto são sentimentos de exultação como de decepção, porque bem sabemos que não são umas horas de atenção, compreensão e amor que vão mudar a vida daquelas crianças......há certas coisas que elas nunca vão ter e há outras que já perderam para sempre. Mas é verdade que, no fim do dia em que estivemos com elas, sentimos que fizemos algo de bom, que aproveitámos bem o nosso tempo e canalizámos bem a nossa energia. E, uma coisa é certa: acabamos por ser nós a ganhar, pois dando pouco acabamos por receber imenso.
Um dia destes irei também dar o meu testemunho como voluntária.
Um bem haja para si e para a sua mulher.

Afixado por: IsabelM em janeiro 31, 2004 07:53 PM

Olá
Antonio

Eu e minha esposa temos dois filhos e no futuro bem próximo estamos querendo adotar duas meninas.
E lendo e buscando informações ficamos comovidos pela historia das meninas chinesas e estamos pensando seriamente em adotar meninas chinesas, mas nem sabemos por onde começar, voce pode nos ajudar?

Afixado por: Cleuton Ribeiro em setembro 24, 2004 06:08 PM

Olá António

Fiquei muito impressionada com o seu testemunho, e gostaria de saber quais os passos a dar para me tornar também voluntária.

Obrigado

Ana Ferreira

Afixado por: Ana Ferreira em novembro 16, 2004 05:53 PM

Olá Ana

Podes dirigir-te pessoalmente aos Lares de Acolhimento de Crianças e Jovens ou aos CAT's (Centros de Acolhimento temporário) que encontras na net, através da Carta Social - Redes de Serviços e Equipamentos. Podes ainda inscrever-te nas Santas Casas da Misericórdia do país, que têm sectores de voluntariado ou ainda, no Gabinete de Apoio Técnico ao Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado, tel: 213 507 259 (acho que está ligado ao antigo IDS - Instituto para o Desenvolvimento Social).

Boa sorte.

Afixado por: Sandra Cunha em novembro 16, 2004 11:17 PM