fevereiro 02, 2004

A voz de quem nos visita II

Como havia prometido, hoje quero falar dos chamados “laços de sangue“ de que sempre e tanto se fala quando se fala de adopção. Como se o “natural” e o “normal” fosse precisamente e só ter-se filhos “biológicos”, e, ao se adoptar, se estivesse a fazer uma (mera) concessão à vida e às suas circunstâncias, sendo estas quase sempre a impossibilidade de se ter filhos “biológicos”. Vista do lado de fora, (embora felizmente esta mentalidade esteja a mudar, mesmo que muito lentamente) os outros vêm-na também muitas vezes como uma mera atitude “altruísta” e de “louvar” (as aspas são propositadas ) por parte dos pais adoptantes, como se o “normal” e o “natural” fosse, aqui uma vez mais, ter-se filhos biológicos, o que por si só já diz tudo...

Estava a ver a Grande Entrevista com a Judite de Sousa há três semanas atrás em que o entrevistado era precisamente o cientista em reprodução humana, Mário de Sousa (do Porto). Falava ele das angústias e desesperos dos pais que não podiam ter filhos, mesmo já tendo tentado todos os tratamentos de fertilização e que lhe perguntavam, e agora, doutor, o que fazer daqui por diante, ao que ele respondia, vivam a vossa vida, tenham filhos de uma outra maneira, adoptem, por exemplo. Perante estas observações, a jornalista faz-lhe a pergunta: “Então e a descendência, a prole, não acha normal, doutor, que se queira deixar a nossa marca / herança? “(lá estava de novo a questão do sangue...). Desmistificando completamente o que se subentendia e entendia na pergunta da jornalista, respondeu que lamentava desiludi-la, mas que metade disso era cultural e a outra metade genética, explicando que se se destruísse, por exemplo, nas mulheres o gene responsável por essa vontade em se ter um bébé/filho a mulher rejeitaria por completo a gravidez e tudo adjacente e respeitante à maternidade.

Ao longo da minha vida tenho testemunhado factos e vivências das mais aberrantes devido a progenitores (porque pais não o são, com certeza) dos mais aberrantes. Eu mesma sou exemplo do que acabo de dizer. Sem autocomiseração, sentimento que me acompanhou, aliás, durante muitos anos, ou autovitimização, tenho a dizer que tive/tenho progenitores que descrever toda a sua maldade e estupidez é impossível de descrever. Quem me dera, digo-o muitas vezes, ter sido criada e educada por pais adoptantes que me dessem o amor, a compreensão necessária, uma vida normal, enfim. Esses é que seriam os meus verdadeiros pais (...).

A mensagem principal e fundamental que quero aqui deixar é que o que importa mesmo e só, é o amor e as afinidades entre as pessoas. O sangue, os laços de sangue são importantes e fundamentais, sem dúvida, mas só quando existem aqueles pressupostos; caso contrário, de nada servem ou valem.

Há algum tempo atrás foi feito um estudo no Brasil, mais concretamente em S. Paulo (por uma das universidades) onde se analisavam os laços de afecto e de relacionamento entre pais e seus respectivos filhos. Nesse estudo estavam e constavam apenas famílias em que nelas havia filhos biológicos e filhos adoptados ao mesmo tempo. A conclusão do estudo, na quase maioria absoluta (a frase é mesmo do respectivo estudo) foi que os laços de afecto e de relacionamento entre os filhos adoptados e pais adoptantes eram muito melhores e muito superiores aos biológicos (entre pais e filhos biológicos). E porquê, apetece perguntar. Eu tenho a minha própria opinião, que não interessa aqui explanar, apenas acho que já é tempo das pessoas acabarem com o que parece ser (ainda) um estigma social de serem pais adoptivos e/ou filhos adoptivos. Porque são pais e filhos somente.

Um abraço,

Maria V. D.

Publicado por PauloS em fevereiro 2, 2004 07:36 PM
Comentários

Visito hoje pela primeira vez este blog. Parabéns!!! Soube da sua existência pela referência feita na rubrica "O melhor do mundo".
Tenho uma filha de oito anos que está comigo desde os sete meses. Durante o processo de adopção sentimo-nos muito sós e na altura tive a boa intenção de criar algo que se assemelhasse a um grupo de "apoio" a canditatos a adoptantes...Não sabendo muito bem como o fazer, a ideia morreu aí. Vejo-a agora aqui ...em acção...personificada neste blog. Por isso, mais uma vez, parabéns!!!!

Afixado por: Maria João em fevereiro 4, 2004 12:48 PM

Ao longo de 28 anos de existência aprendi que amamos com o "coração" e não com o "sangue"...

Afixado por: candy_candy em fevereiro 4, 2004 07:28 PM

Caro Paulo,
acompanho o seu blog já há algum tempo, parabéns por dar a cara e pelo empenho.
Sou mãe de 4 filhos (biológicos por acaso) e muito desejados. Não me imagino a viver a minha vida sem filhos por isso, considero absurdos os entraves, as demoras, a incompetência relacionados com a adopção. A criança deveria ser, e só ela, a prioridade.
Faço trabalho voluntário numa instituição que alberga crianças (meninas) retiradas às suas famílias biológicas. É muito violento emocionalmente acompanhar estas meninas que não sabem o que é uma família "normal", que embora tenham, materialmente falando, tudo na instituição lhes falta o carinho, aquele pequeno gesto individual, destinado só a ela. Nós , as famílias voluntárias de fim de semana, embora só leve uma menina, somos conhecidas por todas as meninas, interpelam-nos, perguntam pelos filhos, querem também partilhar connosco qualquer informação. Muitas delas estão institucionalizadas há muitos anos e aí ficarão até aos 18 anos. Não estão disponíveis para adopção porque a "família" existe ou porque já são demasido grandes. E tantas famílias desesperam à espera. Isto porque a criança não é REALMENTE prioridade neste país de brandos costumes.

Afixado por: Domitila Lima em fevereiro 9, 2004 02:31 PM

maria joao
é giro que eu tive a mesma ideia,mas tambem não tinha conhecimentos suficientes para o fazer sózinha.ainda bem que o PAULO meteu mãos à obra.
agora acredito que resulte,com a vontade de todos ajudarem,e com a sabedoria de alguns....se puder não falte ao encontro em outubro,pode ser que a conversarmos todos ,se consiga algo de grande.
o meu filho tem 5 anos e soube desde sempre ,a sua lida bem com o facto de ter sido um dia adoptada???? partilhe o que quiser connosco,aprendemos a fazer tudo melhor ,ouvindo as experiencias de pessoas que já passaram pelo caminho que ainda vamos percorrer.
até breve!!!!!!!!

Afixado por: gibarao em julho 1, 2004 01:55 PM