fevereiro 09, 2004

Forma de estar

Por desígnio do destino, ou acção divina, acabámos por ter 2 filhos, tendo a minha mulher engravidado, apenas uma vez.
Esse facto permite-me aferir das semelhanças e diferenças, que este processo de educação envolve. Embora não exista nenhuma diferença relativamente à forma como lidamos com os dois, não deixo de sentir, que inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, teremos de lidar com o facto da nossa filha ser adoptada, com naturalidade e sem receios.

Ao longo dos cerca de seis meses, que venho a manter este blog, tenho-me apercebido da dificuldade de se falar sobre a adopção. Mesmo os pais que já adoptaram, não participam, não sei se por receio de se exporem (coisa que se evita, pois não necessitam de escrever com o seu nome verdadeiro), ou por aquilo que considero, uma forma de defesa.

O facto de assumir (neste Blog e para quem sabe) que sou um pai adoptante, não significa que esteja a menosprezar a dignidade da minha filha, nem tão pouco a possibilitar à sociedade que a marque com um carimbo na testa.
A sua privacidade está assegurada, assim como, toda a sua educação, que, por ser igual à do irmão me permite assumir a naturalidade de falar abertamente sobre a adopção, como uma dádiva, e não como um estigma.

Ao escrever sobre a adopção da nossa filha, estou a interiorizar uma consciência, que me permitirá a seu tempo, lidar mais facilmente com este assunto, do que, se o escondesse dentro de mim, com receio de tudo e de todos.

O processo de adopção não acabou, quando o juiz, decidiu que a nossa filha, passaria a ter o nosso nome e que nós iríamos ser os seus pais. O processo legal, esse sim terminou. Mas nunca poderei esquecer que a nossa filha é adoptada, pois se tal fizesse, seria alimentar uma mentira, da qual, mais tarde teria muito mais dificuldade em assumir perante ela, que não somos os seus pais biológicos.

A forma como lhe poderemos dizer, a naturalidade, e a convicção (na minha opinião), só poderá ser franca, se não sentirmos angustia ao contar-lhe que sendo adoptada, para nós, não existe qualquer tipo de diferença, entre ela e o irmão.
Ao falar (escrever) sobre este assunto, estou a criar um “à vontade”, que me permite encarar com menos dificuldade este necessário momento.

O receio que ela um dia, (depois de já lhe termos contado), possa utilizar o argumento, de ser adoptada para servir de comparação entre ela e o irmão, fruto de alguma vontade sua que tenhamos que controlar, deverá ser entendida, como um argumento de circunstância e não deveremos sentir que nos está a tentar atingir, na forma como a educámos.
Por termos dois filhos, a disputa natural entre eles (não tendo sido fomentada, mas que já existe neste momento), irá proporcionar inevitáveis situações, em que, só a naturalidade com que este assunto for abordado em casa, nos possibilitará ultrapassar, estes momentos sem considerarmos que estamos a ser atacados na forma como educamos um ou outro. Por certo nos irá custar ouvir, fruto da irreverência da sua juventude, coisas que achamos injustas, e eventualmente o argumento de ser adoptada poderá ser por ela utilizado, mas espero nessa altura, já ter, fruto de não me ter fechado sobre este assunto, uma postura, menos conservadora e muito mais aberta.

Por isso considero que, a partilha de formas de pensar, e de viver a adopção, será sempre benéfica, entre todos os intervenientes deste projecto de vida.

PauloS.

Publicado por PauloS em fevereiro 9, 2004 08:51 PM
Comentários

Não há o que temer em relação à reacção da sua filha. Dependerá em parte da forma como lhe disser, e eu acho que quanto mais cedo melhor. Não sinta qualquer angústia ou ansiedade em relação a isso, porque ela captará,inevitavelmente, para usar o seu advérbio, essa mesma angústia e ansiedade. Na maioria das vezes "o problema" está nos pais ( e/ou no meio social ) e não nos filhos.
Quanto à pouca participação por parte das pessoas em geral e de pais que também já adoptaram, e que aqui poderiam dar o seu contributo, não esmoreça por causa disso. São várias as razões. Faz parte da nossa cultura e do nosso modo de estar na vida e na sociedade em que estamos inseridos. Somos um povo muito fechado e conservador, muito complicado e muito complexado. Temos ( somos ) uma sociedade civil muitíssimo pouco interveniente e participativa, e aqueles que "ousam" intervir ou participar activamente são, não raras vezes, olhados de lado e severamente criticados por isso. Séculos de atraso e de repressão deram nisto mesmo. Mas há que olhar em frente e sejamos nós, mesmo que poucos, a fazer alguma coisa.

Um abraço, Maria Van Dijk

Afixado por: Maria van Dijk em fevereiro 9, 2004 11:43 PM

Eu tenho duas filhas do primeiro casamento. Actualmente vivo com uma pessoa que não tem filhos e tomámos a decisão de adoptar. Ele é alguns anos mais novo e eu confesso que já tendo passado os 40 tenho algum receio de uma gravidez. Além disso sempre tive a ideia de adoptar uma criança.
Vou começar o processo e estou assustada...mas mais pelo tempo e pela burocracia em si...porque tenho consciência que vou gostar tanto dessa criança como das minhas filhas.
Conheço um caso que me faz confusão...alguém que diz sempre..."a minha filha adoptada"...
Acho de muito mau gosto.Dá-me a sensação que essa pessoa ainda não aceitou aquela criança como sua.
Já deixei a questão noutro artigo mas vou repetir aqui.
Onde me posso dirigir para dar início ao processo de adopção de forma a que seja mais rápido?

Afixado por: Dina em fevereiro 10, 2004 01:35 AM

Olá Paulo,

Verá que quando chegar a hora de dizer à "Pipoquinha" (desculpe, mas habituei-me a chamar-lhe assim) que ela é adoptada, não precisará de dizer muito. A intuição diz-me que apenas tentará explicar-lhe de forma muito simples e que será ela a fazer as perguntas certas, as que quiser ver respondidas no momento. Outras virão, mais tarde, o que só pode ser bom, por ser simples e natural. No momento oportuno, creio que o Paulo e a mamã da Pipoquinha precisarão apenas de esperar e... abrir os braços. O tempo, desde sempre considerado um bom escultor, é também sábio e tudo cura, tudo cinzela com doçura, dando-nos as respostas para tudo. Nós já temos, em germe, resposta para tudo. Nesse momento decisivo, verá que se obedecerem ao instinto e abraçarem a vossa pequenina, ela não precisará de engustiar-se: perceberá quem são os seus pais verdadeiros, onde é a sua casa, quem é o seu irmão e como se construiu a sua vida. Como num puzzle, apenas colocamos peças. Se não nos angustiarmos, tudo nos encaminha para as respostas que trazemos dentro, as certas, as que vêm do âmago, aquelas que nunca deixarão que a verdade falte. Ser-se igual a si mesmo mas com uma mais-valia: nesse tempo, essa criança ter-se-á tornado, de facto, parte da vossa própria alma, parte integrante da vossa carne, encastoada em vós como só um filho o pode ser.
E isso, isso só pode ser bom! :0)

Bem-haja pela ternura deste blog e pela sua boa fé.
Abraços para os quatro!

Inês Alva

Afixado por: Inês em fevereiro 10, 2004 11:17 AM

Paulo, concordo plenamente com a sua forma de pensar e até, de estar na sua vida. Pois ambas vão ao encontro da minha maneira de pensar e estar. Iniciei um processo de adopção como a maioria dos casais, ou seja, com aquele sentimento de necessidade de..., que muitas vezes é-nos incutido pela sociedade e cultura com que vivemos. Sendo a mesma sociedade que nos faz sentir "anormais, diferentes dos outros" (e claro que os casais que não tem filhos não sentem esta "discriminação", ou se sentem não ligam porque foi opção deles não seguirem os parâmetros ,ditos normais, da sociedade. Bom, no entanto, com o passar do tempo comecei a aperceber-me que algo dentro de mim mudava em relação a maneira como via a adopção. Cheguei à conclusão que a adopção para mim passou de uma necessidade de ter um filho, para um objectivo, um projecto de vida que o tenho que concretizar mesmo que consiga ter um filho biológico. Como posso recusar uma criança, mesmo tendo um filho biológico? E sabendo que essa mesma criança, como a maioria delas, foi tratada muitas vezes pior que um animal. Conheço tantas historias reais!!
Se a recusasse, tenho a certeza que muitas vezes durante a minha vida iria pensar nesse filho do
coração que poderia ser meu.
Nunca escondi o meu objectivo de adoptar a ninguém, pelo contrario ate sinto orgulho. Ter um filho adoptado e um privilegio, e não um motivo de vergonha. Nunca vou esconder do meu filho que ele é adoptado, alias aconselha-se que não se deve esconder da criança, para mais tarde, a mesma não
se sentir enganada, revoltada.

É pena que muitos casais que adoptaram não colaborem neste blog. Compreendo que muitos não o fazem porque querem conservar a privacidade ou não tem tempo, tem receio de remexer o passado ou estão tão bem com os seus filhos de coração que se esqueceram que existem centenas de casais a passarem pelo mesmo. Acredito que um dos motivos mais forte seja a falta de tempo. A experiência destes casais era óptima para nos, como tem sido a do Paulo.

Até breve.

SU

Afixado por: SU em fevereiro 11, 2004 12:51 AM

Olá
Nós (a minha esposa e eu) adoptamos uma menina com 4 meses que tem agora... 12 anos. Depois de bastante hesitação decidimos fazê-lo com o espírito de que seria para o que "desse e viesse". A assistente social (de quem nos tornámos amigos de longa data) escolheu por nós. Sempre informámos todas as pessoas, familiares e amigos. E também fomos contando à nossa filha, descontraidamente, sempre que vinha a propósito (ainda nem andava na escola). Para nós e para a nossa filha tem sido um processo fácil. E estamos sempre disponíveis para quem queira falar sobre isso. Moramos em Vila Real, e só hoje, 11 de Março descobrimos o blogue "eu-adoptei". Parabéns pela bela iniciativa!
Saudações
Pedro F.

Afixado por: Pedro F. em março 11, 2004 10:18 PM

Excellent, that was really well explained and helpful



Jordan

Afixado por: Jordan em abril 25, 2004 01:59 AM