abril 03, 2004

Decidir pela adopção

(Blog mantido pelos leitores. Envie o seu contributo (texto) para o meu email,
(eu-adoptei@iol.pt), terei todo o gosto em publica-lo aqui.)

No site ABC do Bebé no artigo "decidir pela adopção" aparece a certa altura a seguinte afirmação:

"Acima de tudo, os pais adoptivos esperam muita alegria com a chegada da nova criança, mas têm também de estar preparados para muitos desapontamentos e problemas, que podem parecer exacerbados quando se passam com um filho não biológico. Raros serão os casos de pais adoptivos que em determinada ocasião não se tenham arrependido desse acto, mesmo que não o formalizem em palavras".

Eu tive alguns problemas significativos durante o ano que se seguiu à chegada do meu filho, que tiveram a ver, essencialmente, com problemas de saúde da criança e com o processo judicial da adopção plena. Mas sinceramente, jamais, nem um só segundo me arrependi do passo que dei (e já passaram quase 3 anos)!
Será que sou uma raridade?
Ou a opinião do artigo está exagerada?

Alexandra

Publicado por PauloS em abril 3, 2004 10:04 PM
Comentários

Sinceramente quem escreveu o artigo, não sabe o que é a adopção, nunca adoptou, não pensa nisso ou então tem um filho biológico e já se arrependeu.......

Afixado por: Ana em abril 5, 2004 05:10 PM

Eu também já tinha lido este artigo, e confesso que na altura fiquei um pouco apreensiva.
No entanto cheguei á conclusão que uma pessoa que adopta nunca se pode arrepender de o ter feito, porque, ao contrário de se decidir ter filhos biológico, decidir adoptar implica uma grande vontade de ter filhos, de decidir enfrentar um longo processo burocrático e tudo isso não pode ser decidido de ânimo leve. Por isso uma pessoa que enfrenta tudo isto não pode depois arrepender-se.
Quando uma pessoa quer mesmo ter um filho, seja biológico, seja adoptado, por mais problemas que tenha que enfrentar por sua causa, nunca se arrepende.
Se perguntarmos a pais que têm filhos deficientes ou com graves problemas de saúde se se arrependeram de os ter a resposta é sempre negativa.
A propósito, aqui há uns tempos conheci uma mãe adoptiva que tinha um filho ( adoptado com três anos de idade e que tem agora 10 anos ) com imensos problemas de atraso fisico e intelectual.
Sempre teve muitos problemas e despesas de saúde com este filho. Eu sugeri-lhe que participasse neste blogue e ela disse-me que era melhor não pois a experiência dela tinha sido muito negativa.
Fiquei a pensar no seu caso e entretanto li este artigo. Um destes dias perguntei-lhe se ela estava arrependida de ter adoptado o filho e a resposta dela foi firme: " Isso nunca ".
Na verdade, nunca nos podemos arrepender daquilo que durante tanto tempo desejámos fazer, mesmo que, por vezes, algumas das nossas expectativas saiam frustradas. Se calhar, o mais provável era arrependermo-nos de nunca o ter feito.
Isabel M.

Afixado por: Isabel M. em abril 5, 2004 09:55 PM

Queria só acrescentar ao meu comentário anterior o seguinte: É mais fácil alguém arrepender-se de ter tido um filho biológico do que adoptado porque este último é sempre muito desejado e programado enquanto um filho biológico pode não o ter sido.

Afixado por: IsabelM em abril 6, 2004 09:28 PM

Também fiquei um pouco surpreendida com o artigo aqui transcrito.
Afinal parece que algumas pessoas (se for este o caso) avançam para a adopção de uma maneira um pouco leviana. Tal como alguns pais biológicos, no fundo.
Quando se parte para uma gravidez, fisica ou do coração, é porque realmente se quer muito isso. Os descuidos que acontecem a nível fisico, e que levam muitas vezes ao aborto, não deveriam acontecer no caso da adopção. Aqui temos muito tempo para reflectir e sabemos à partida que vai ser um desafio. Daí a recompensa ser maior ...

Afixado por: Sil em abril 7, 2004 08:24 PM

Nada mais compensador do que ajudar uma criança a crescer, tirando-a de um ambiente pouco propício a tal desiderato.

Afixado por: Pedro Santos em abril 7, 2004 09:36 PM

Um bom fim de semana (é pena não haver mais assim).
Uma óptima Páscoa.
Não comam muitas amêndoas pois faz mal aos dentes e não ajuda na elegância.
Aproveitem para carregar as baterias.

Afixado por: vmar em abril 8, 2004 10:24 PM

Eu não sei quem escreveu esse artigo, e os fundamentos que essa pessoa tinha ao escrevê-lo, mas então vem contrariar todos os outros que se escrevem por esse mundo fora e que são completamente no sentido oposto!! Porque então, se se fosse a escrever artigos sobre o desespero e o sofrimento de tantos e tantos pais "naturais" ou "biológicos" em relação aos seus filhos igualmente "naturais" ou "biológicos" ( e vice-versa, já agora, porque não?) também muito se tinha a dizer e/ou a escrever....e nós todos os dias vemos casos desses. Ninguém escreve sobre eles, porquê?? Por serem filhos "naturais"?? Claro que resposta é afirmativa. É que isso não tem qualquer fundamento. Já agora, quem escreveu o artigo, alguém sabe me dizer?
Maria van Dijk

Afixado por: Maria van Dijk em abril 10, 2004 05:27 AM

Acho que a pessoa que escreveu este comentário ou não entende nada sobre maternidade/paternidade ou não soube se expressar. Pais biológicos ou não tem problemas com seus filhos e naturalmente pensam algumas vezes porque fui ter um filho, seja porque o bebê não o deixa dormir a noite, seja pq aquele bebesinho maravilhoso se tornou um adolescente rebelde...é natural questionarmos a maternidade em alguns momentos mesmo que somente em pensamentos, mas isso não é "privilégio" de pais adotivos!

Afixado por: elisangela em abril 18, 2004 11:37 PM

eu acho que não são só os pais adoptivos que mais sofrem com o atraso na resolução das adopções, mas também as crianças já que por vezes elas já são crescidas e em certas vezes não ficam com quem elas cresceram a pensar que eram seus pais. também posso falar do meu caso, eu fui adoptada plenamente e a minha adopção demorou cerca de 4 anos a ser declarada. espero que esta situação venha a mudar agora com a nova lei da adopção.2

Afixado por: fatima silva em abril 22, 2004 02:25 PM

Não, não sou mãe adoptiva, sou apenas biológica. E a única ligação que até ao momento presente poderei fazer em relação à adopção é o facto de o meu namorado ser pai de um menino adoptado :-) e apesar de a criança estar a ser acompanhada por um profissional de psicologia não acredito que alguma vez quer ele, quer a ex-esposa se tenham alguma vez arrependido.
ADOPTAR É UM ACTO DE AMOR, e quem escreveu o artigo não sabe ou nunca pensou em adoptar uma criança.
Ainda existe por aí muita gente que acha que a adopção é apenas uma solução para os casais que por motivos de saúde não podem ter filhos biológicos, e não coloca sequer a hipótese de alternativa a um segundo filho (tipo um adoptado, um biológico)??????
Eu sei que a gravidez é uma coisa linda, nada se compara ao acto de sentir um ser a dar-nos pontapés na barriga, mas desiludam-se, dura apenas alguns meses..... :-(
E ser capaz de amar alguém que está, na grande maioria dos casos, à nascença, marcado pela diferença (seja pela cor da pele, diminuição das capacidades fisicas ou mentais, histórias antecessoras de maus tratos, ou quaisquer outras), é de facto um grande acto de coragem, e um acto de um amor enorme.
Só mais uma coisinha, a minha filha (biológica), tem seis anos, e encontrou este fim de semana em Belém uma criança com cerca de oito anos que sofria de paralisia cerebral infantil. Não foi fácil explicar-lhe porque razão esta criança era diferente das outras, ela sentiu-se confusa, e sem perceber porque razão a menina, um pouco mais velha que ela, tinha dificuldades motoras e na linguagem, entre outras; mas por favor pais e mães que nos lêm, esforcem-se em explicar este tipo de coisas aos vossos filhos, e talvez amanhã o nosso Mundo seja um bocadinho melhor.

Afixado por: Manuela em abril 26, 2004 02:27 PM

Minha avó é adoptada ! Sim adoptada.
Ela e o meu avô se conheceram há muitos anos atrás, o meu avô que era divorciado e vivia com os seus dois filhos e uma filha ! A minha avó acabou por se casar com ele e simplesmente fez dos três, os seus filhos ! logo faz de mim, dos meus 2 irmãos e dos meus 6 primos .. netos adoptivos ! Ou será ao contrário ?
Toda a vez que penso nela, simplesmente agradeço a Deus por me ter trazido aquela mulher, que me fez um Homem, com princípios, com vontade de retribuir com o mesmo amor que um dia ela decidiu dar incondicionalmente !
Eu simplesmente te amo avó e quem me dera que pudesses viver para o resto da minha vida, pois existem poucos exemplos a seguir como o teu !
Eu creio que esta é a melhor resposta para quem tinha dúvidas !
Não interessa como começa ! Nem as dificuldades que se encontram pela vida. Se um dia o meu filho (adoptado ou biológico) me disser o mesmo que eu sinto neste momento, eu poderei me sentir realizado !

Afixado por: RMS em maio 3, 2004 10:33 PM

RMS
É lindo o que nos contou! E explica tudo, sem dúvidas não são precisas mais palavras...

Afixado por: AlexandraP em maio 4, 2004 10:30 AM

Como é que é possível que numa revista apareça uma afirmação destas?????? Como é que é possível que se fale da adopção nestes termos? Quando é que as pessoas vão perceber que só se fala em filho ADOPTADO, simplesmente porque não foi gerado e parido???? Será que as pessoas dizem: olha, este é o meu filho biológico. Não, ninguém diz e então porque falar em filhos adoptados?? Filho é filho. Será que quem escreveu este artigo sabe o, o significado e o sentido que esta palavra tem?

Maria Joana

Afixado por: Maria Joana em julho 21, 2004 12:45 AM


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O CORAÇÃO DE TODOS É VERMELHO
Sobre o preconceito
In: Weber, L.N.D. (1998). Laços de ternura: pesquisas e histórias de adoção. Curitiba: Santa Mônica. P. 117.

O inferno são os outros - (Sartre)

Preconceito é um conceito formado sem maior ponderação; é uma idéia pré-concebida sem o conhecimento dos fatos. Preconceito, como definiu minha filha Tatiana de 5 anos, "é quando a gente não gosta de alguém diferente". O preconceito é uma aquisição social, ou seja, é algo que aprendemos na comunidade, e portanto, em maior ou menor grau, todas as pessoas têm algum tipo de preconceito. Alguém "diferente" pode ser alguém de outra cor, de outra religião, pode ser muito gordo, ou muito magro, ou feio, ou muito bonito, ou alto, ou muito baixo, enfim vemos a relatividade da questão: é sempre em relação a nós mesmos que achamos o "outro diferente". Do ponto de vista psicológico, o preconceito baseia-se no medo que temos do diverso, daquele que não é igual a nós, do outro que não reflete a nossa imagem como gostaríamos, pois buscamos um olhar que possa devolver-nos a nossa própria imagem que lhe depositamos. Na verdade, temos medo, desse nosso "eu" diferente e desconhecido. É muito difícil alguém admitir seu preconceito, especialmente o preconceito racial, então é mais fácil falar que "os outros é que são preconceituosos"; esses "outros" revelam nosso lado que tememos encarar.
Ao assumirmos a posição todos têm o direito de serem diferentes, pois é a diversidade que move o mundo, gostaria de enfatizar que é preciso cuidado também ao discriminarmos o preconceituoso, achando que o que somos capazes de fazer, todos são. "Eu adotei uma criança de cor, então todos devem fazê-lo"; ou "eu adotei uma criança com mais idade, então todos são capazes de adotar"; ou "eu adotei uma criança e todos devem adotar". Da mesma forma que é preciso respeitar as diferenças de raça, idade, estética, nacionalidade, religião, também é preciso respeitar as história de vida de cada um, as histórias de aprendizagem que uma pessoa teve. Se o preconceito é aprendido e, portanto, não nascemos com ele, histórias de vida diferentes levam as pessoas a pensar de modo diferente e a serem capazes de agir de maneiras diversas. É fácil ver que algumas pessoas são mais introvertidas, outras mais empáticas e extrovertidas, algumas são capazes de se doar, outras se fecham para o mundo, algumas, pela sua história, são capazes de adotar uma criança mais velha ou uma criança de cor e outras não. Assim como ocorre com os preconceitos, temos que ter cuidado com o pensamento maniqueísta e simplista: "se eu estou certo e o outro está errado"; "eu sou bom e o outro é mau". Dificilmente as coisas são estáticas e bipolares; elas existem num contínuo, ou seja, as pessoas boas também cometem erros e vice-versa.
Se assumirmos que o preconceito é aprendido socialmente, entendemos que este tipo de pensamento pode ser modificado! Não é produtivo pensar "ele é preconceituoso", "ele é racista e, portanto, é uma pessoa má", mas pensar "o quanto eu mesmo serei capaz de mudar minha atitude preconceituosa?", ou "o quê eu poderei fazer por ele para mudar o seu pensamento racista?" Temos que acreditar que todos são capazes de mudar, de superar suas "aprendizagens sociais". O mais importante é compreendermos os nossos limites e os limites dos outros porque somente assim poderemos superá-los e entender que, embora as pessoas tenham cores diferentes, o coração de todos tem a mesma cor.
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Afixado por: turandot em agosto 5, 2004 10:14 AM

"ADOTEI UM BEBÊ HIV POSITIVO"


Ela é médica, mora em Salvador, Bahia, e convenceu todos, inclusive o marido, a adotar uma menina soropositiva. A leitora, que não se identifica para proteger a filha, conheceu Andréa quando tinha pouco mais de dois meses. A adoção aconteceu cinco meses depois. Conheça a luta dessa mulher para ser a mãe da menina, que hoje tem 2 anos. Entre 811 cartas e e-mails recebidos pela redação, a história da médica foi a escolhida e ela ganhou as jóias da promoção Marie Claire/Natan

“Sou médica, casada, tenho duas filhas, uma de 17 anos e outra que acaba de completar 2. É de minha filha menor que se trata essa história. Quando eu e meu marido nos casamos, 11 anos atrás, eu já tinha minha primeira filha, que estava com 6 anos, e os filhos dele já eram quase adultos. Sempre quis ter mais de um filho, mas fui adiando, adiando, e o tempo foi passando.
Eu e meu marido já havíamos passado por muitas adversidades, mas naquela época, agosto de 99, vivíamos uma boa fase, serena e amorosa, e conscientemente eu nada faria para quebrar o que estava vivendo. Mas sei que existem coisas que escapam a esse domínio.
Uma amiga que vinha tentando ter filho decidiu adotar uma criança, e eu dei a maior força. Como ela não fez nenhuma exigência, nem de sexo nem de cor, logo apareceu uma criança para ela. De noite, estava na casa dela ajudando nos primeiros cuidados com o bebê e ela me contou: ‘Quando fui ao Juizado buscar meu filho, tinha acabado de chegar um bebê prematuro, baixo peso, subnutrido, uma menina tão branquinha que se viam as veias do rosto’. Ela falou e não lembro o que comentei, mas arquivei aquilo, ficou lá o registro. Mais ou menos um mês depois, eu estava no trabalho e ela chegou toda esbaforida: ‘Lembra aquela menina que te falei?’. É claro que lembrava. ‘Ela foi levada por um casal, mas, quando fizeram exames, constataram que era HIV positivo e a devolveram.’ Imediatamente disse: ‘Essa criança é minha, é minha filha, vou cuidar dela’.
Aquela coisa me tomou na hora. Minha amiga também entrou na viagem, dizendo: ‘Vamos pegar a menina, ela não tem nada, deve estar só sensibilizada [crianças nascidas de mães portadoras do vírus HIV podem nascer apenas com o anticorpo, mas sem o vírus, e portanto não ter a doença]’. Nós duas fizemos coro nisso. Havia pessoas que afirmavam: ‘Que maluquice. Se você quer ter um filho, por que vai querer uma criança com problema?’. Mas, quando aconteceu isso, foi algo maior que eu, que não podia dominar.
Até aquele momento, não havia nada formalizado na minha cabeça em relação à adoção. Às vezes, quando apareciam notícias de bebês que foram deixados num cesto de lixo, eu brincava, até com meu marido, dizendo: ‘Olha, a gente viaja pouco, quase não sai. Já que não tivemos mais filhos, eu vou mandar colocarem o cesto na minha porta’. Falava brincando, mas quando se brinca com uma coisa é porque já está no inconsciente.
Assim que soube que a criança havia sido devolvida, eu e minha amiga ligamos para o Juizado de Menores e ficamos sabendo que ela havia sido encaminhada para uma instituição que cuida de portadores de HIV. Falei do meu interesse pelo bebê à assistente social que cuidava do caso, que já ficou bastante mobilizada, e lhe pedi que autorizasse junto à instituição a minha primeira visita à menina.
Quando eu vi Andréa pela primeira vez, em setembro de 99, ela estava com dois meses e um pouquinho, mas parecia recém-nascida. Estava longe de ser um bebê de propaganda: era miudinha, toda feinha. Eu a peguei nos braços e uma funcionária da instituição falou: ‘Andréa, é a sua mamãe’. Pronto. Senti que não havia mais retorno. Ela já era minha filha. Virei para a diretora da casa e disse: ‘Olha, por mim ela já está adotada, só vai depender agora do meu marido’.
Cheguei em casa toda mexida e fui logo falando: ‘Gente, vou adotar um bebê HIV positivo’. Minha filha, na época com 15 anos, e as outras pessoas que moravam na minha casa aderiram com o maior entusiasmo à idéia. Lembro que Cristina, nossa empregada doméstica, disse: ‘A senhora pode trazer que ajudo a cuidar’, mesmo sabendo da possibilidade de ela ser portadora do vírus. Esperei meu marido voltar do trabalho e, como já previa, recebi um sonoro não como resposta. Mas algo me dizia que aquela história teria desdobramentos.
Duas semanas depois, eu me submeti a duas cirurgias e fiquei quase todo o mês de outubro de molho em casa, mas sempre ligava para saber de Andréa e para reafirmar o meu desejo em adotá-la, porque tinha um pouco de medo que outra pessoa se interessasse por ela. Enquanto isso, tentava fazer a cabeça do meu marido. Mas ele achava que aquela vontade era um capricho meu, uma reação imatura de uma quase cinqüentona, e eu não entendia por quê. Vale dizer que ele não é uma pessoa má nem insensível, mas é muito racional, muito pé na terra. As pessoas me perguntavam se era por conta do HIV positivo. Não era por isso. Ele não queria mais filhos, a questão era essa.
Aos poucos, fui conseguindo informações sobre a origem de Andréa —o nome foi dado pelo casal que a tinha devolvido. Ela nasceu em uma maternidade na periferia de Salvador, em 6 de julho de 99, prematura e com baixo peso (1,8 kg). Sua mãe biológica teve alta, e ela precisou ficar na incubadora. A mãe foi visitá-la algumas vezes, mas, no dia em que Andréa teria alta, não apareceu. Tentaram encontrá-la no endereço que estava na ficha, mas ele não existia. A mãe era moradora de rua, ao que parece, e entregou sua certidão de nascimento ao dar entrada na maternidade. Andréa foi então levada para o Juizado de Menores, sem nome, sem documento. O casal logo a levou e ficou um mês com ela até devolvê-la. Depois, soube que eles haviam feito um quarto e um enxoval de princesa para ela. Foi o segundo abandono concreto de Andréa.
Quando me recuperei das cirurgias, passei a ir visitá-la na instituição todos os dias. Vivia em função desses encontros. Andréa parecia começar a me identificar como mãe. Eu entrava, ela estava tomando mamadeira no colo de alguém, largava o bico e abria aquele sorriso. Se estava dormindo, eu chegava quietinha e ficava encostada no berço, ela logo abria os olhos. Todo mundo ficava impressionado com o olhar dela para mim, era o comentário que eu mais&mbsp;ouvia.
A cada separação nossa, o sofrimento era maior, principalmente quando eu tinha de ir embora e ela não estava dormindo. Ficava olhando eu me afastar. Era terrível. Entre uma visita e outra, o consolo era ficar cheirando suas roupinhas, mexendo nelas, além de ligar para as atendentes de plantão, pedindo-lhes notícias e tentando monitorar os cuidados de Andréa pelo telefone. Nos finais de semana, não havia visita. Sábados e domingos eram uma tortura para mim.
A relação com meu marido começou a ficar estremecida, nosso casamento corria o risco de acabar. Eu não podia nem tocar no assunto. Ficava triste com isso. Não queria ter de escolher entre ele e ela, mas naquele momento eu não ia abrir mão da Andréa, mesmo sabendo que eu iria sofrer muito por meu casamento ter acabado por essa razão. Sentia Andréa como minha filha, queria tê-la nos meus braços e tinha alguém dizendo: ‘Você não vai ficar com ela’. Algumas pessoas, preocupadas que eu desestabilizasse toda a minha vida, diziam que se eu gostava tanto assim da menina que a ajudasse, mas deixando-a na instituição. Respondia: ‘Você deixaria um filho seu em uma instituição?’. Por outro lado, muita gente que estava vendo meu sofrimento começou a tentar me ajudar de algum modo, todos ficaram muito mobilizados. Alguns diziam: ‘Minha mãe está fazendo uma novena’, coisas do gênero.
Num certo momento, a direção da instituição começou a restringir as minhas visitas. Até então, eu tinha livre acesso. A diretora, vendo meu sofrimento, tinha dito: ‘Venha a hora que quiser’. Acho que passei a me tornar incômoda, porque fazia sugestões —por exemplo, que não deixassem Andréa, que não tinha nada, junto com crianças que estavam doentes—, tentava mudar algumas coisas, tentava ajudar levando frutas, fraldas para ela e para as outras crianças. Um dia, me chamaram para dizer que havia horário de visita, das 15h às 17h. Às vezes eu chegava um pouco mais cedo e tinha de ficar no carro, esperando o horário permitido. Na hora de sair, os vigias me mandavam embora.
Essas dificuldades impostas pela instituição, no fim, acabaram me ajudando. No Natal, pedi autorização ao juiz para trazer Andréa para casa. Esses dias foram fatais. Eu olhava para ela e tinha a exata sensação de que tinha nascido de dentro da minha barriga. Passamos um Natal maravilhoso. Até meu marido se mostrou carinhoso e atencioso com ela. Depois que a levei de volta à instituição, minha sensação foi de aborto de filho vivo. A situação ficou insustentável, o sofrimento ficou muito mais pesado. Imagine: alguém toma sua filha de você e a coloca em outro lugar, e você só vai vê-la duas vezes por semana, você não vai passar as noites com ela, não vai poder determinar o que ela come, não vai poder tê-la nos braços a hora que quiser. Era exatamente isso. No trabalho, eu chorava e as pessoas em volta de mim choravam junto. Na instituição, as voluntárias, as assistentes também choravam comigo. Acho que eu era a pessoa que mais chorava na Bahia.
Em fevereiro, Andréa estava com sete meses. Pedi novamente ao juiz que me desse autorização para ficar com ela um fim de semana. Falei com meu marido e imaginei que ele fosse dizer não, mas, para minha surpresa, não se opôs. Quando fui buscá-la, soube que tinha tido febre à noite e acabara de vomitar. A atendente, um exemplo de amor e dedicação, limpou tudo rapidamente, trocou a roupinha de Andréa, passou uma lavanda nela e detergente no chão para encobrir o cheiro de vômito. Depois, ela me disse: ‘Doutora, vá embora logo com ela. Se descobrirem que está doente, não vão deixar a menina sair daqui, e ela precisa dos seus cuidados’. Foi assim que Andréa deixou a instituição para não mais voltar.
Passei o fim de semana com ela na casa de praia de uns primos. Meu marido não foi. Eu sabia que não conseguiria mais uma vez devolvê-la à instituição e simplesmente virar as costas e ir embora. Mas não sabia como enfrentaria meu marido. Cheguei em casa, sentei-me junto a ele e pedi que escutasse. Comecei repetindo o que já havia dito inúmeras vezes: que meu sentimento por aquela criança transcendia o racional e que, para mim, não era incompatível com meu amor por ele. Pela primeira vez, contei os problemas que estavam acontecendo na instituição e falei dos receios que eu tinha de Andréa viver lá. Finalmente, disse que não a levaria de volta.
Ele, então, concordou que ela ficasse. Não foi a decisão a dois dos meus sonhos, mas, assim mesmo, eu não cabia em mim de alegria. No outro dia de manhã, já estava na rua comprando berço, cortinado e outras coisas. Ao longo daqueles meses, já vinha fazendo um pequeno enxoval, escondida. Dois dias depois, estávamos eu e meu marido no Juizado de Menores com os papéis, pedindo sua guarda. O processo, inclusive, está no nome dele.
Hoje Andréa está com 2 anos e é a criança mais linda e sapeca deste mundo. Meu marido também é apaixonado por ela. No início, se alguém perguntasse se era pai outra vez, ele dizia: ‘Eu, não. É dela (minha)’. Mas Andréa soube como seduzi-lo e o coração dele foi amolecendo. Na escola, ela encanta a todos. Recentemente, fui falar com a professora, pedir que distribuísse os convites do aniversário dela na classe, e pedi que visse o nome de alguma criança com quem ela tivesse ligação na escola para eu convidar também, e ela falou: ‘Bom, então você vai ter de convidar a escola toda, porque todo mundo é apaixonado por ela’. Para completar nossa felicidade, os exames para detectar o vírus HIV em Andréa deram negativo.”
Você também tem uma experiência emocionante para contar? Escreva para Revista Marie Claire, "Eu, Leitora", AVENIDA JAGUARÉ, 1485/1487, JAGUARÉ, SÃO PAULO, SP, CEP 05346-902. Ou envie um e-mail para mclaire@edglobo.com.br. Mande endereço e telefone. Só publicamos histórias VERÍDICAS, depoisde confirmadas. Se for necessário, omitiremos seu nome.

Afixado por: turandot em agosto 5, 2004 10:17 AM

Que linda e emocionante história !! É isso mesmo, o que nós sentimos é o que deve ser feito. Este depoimento prova que a vida e os seus caminhos são muito mais do que aquilo que vemos com os olhos físicos......Obrigada, Turandot, por a partilhares connosco...

Maria Van Dijk

Afixado por: Maria van Dijk em agosto 5, 2004 02:48 PM